História da Sardinha

Em 2003 a EGEAC lançou o desafio ao Jorge Silva para nos apresentar uma imagem para as Festas…
O resultado é o que conhecem e a história aqui fica contada na primeira pessoa.

Breve história da Sardinha, Jorge Silva em entrevista a Ana Sousa Dias in DN, 23 de Maio de 2018
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É o homem por trás das sardinhas das Festas de Lisboa. Como apareceu a primeira sardinha?

Reza a lenda que nos idos de 2003 nos convidaram para fazer aquilo que seria a imagem gráfica das Festas da Cidade, em Junho desse ano. A prática do cliente, a EGEAC, era convidar e consultar um ateliê por ano. A coisa teve tanto sucesso com as sardinhas que ficámos agarrados ao cliente e o cliente agarrado a nós até hoje. A maneira como a coisa aconteceu explica-se

Com cheiro a sardinha assada?

Neste caso, crua. Pior. A sardinha não aparece do nada, não é uma criação pura, intelectual. Na altura, eu gostava muito de trabalhar com os objectos e as coisas mais comezinhas da nossa vida quotidiana e doméstica. Fazia capas de revistas e jornais com sapatos, pedras da calçada, e a sardinha apareceu como óbvia, tão óbvia que nunca ninguém se tinha ralado com isso. Fomos à praça comprar um quilo de sardinhas, escolhemos uma, o que não foi muito difícil porque elas são todas iguais, pu-la num normalíssimo scanner A4 de mesa. A coisa foi um bocadinho nojenta. Sendo um material de trabalho, não nos desfizemos imediatamente do quilo de sardinhas e aquilo ficou a empestar o ateliê durante algum tempo. Não as comemos, de facto. A partir dessa fotografia aconteceu uma coisa mágica e muito pouco habitual num ateliê de design que tinha na altura três pessoas a trabalhar: criar uma imagem duradoura das festas e que acabou por se tornar um ícone da cidade de Lisboa. Não é uma história muito glamorosa.

Passou a haver um concurso, há dezenas de pessoas que já criaram sardinhas para as Festas.

Falta aí uma palavrinha: são dezenas de milhar. Há cerca de 45 mil sardinhas feitas até hoje. A partir de 2011, o sucesso da sardinha abriu caminho a um concurso público, democratizou o acesso das pessoas e a sardinha tornou-se uma festa criativa. Apesar das contenções à volta da sardinha real e comestível, a sardinha-fantasia das festas é inesgotável, são cardumes inesgotáveis. Nos últimos anos elas apareciam nos concursos à razão de oito ou nove mil, este ano foram cinco mil, ainda assim é um número significativo. Daí são escolhidas por um júri competente as cinco, seis ou sete – o número varia de ano para ano – que dão a cara e o corpo pelas Festas.

E não há apenas sardinhas nas Festas, não é?

A partir de 2010, começámos a assistir a uma democratização comercial da sardinha. Artesãos urbanos, lojas gourmet de souvenirs, toda a gente começou a fazê-las e hoje a sardinha divide a primazia da comunicação. Outros ilustradores fazem campanhas específicas, como a do Nuno Saraiva nos últimos anos, que atingiu um patamar extraordinário de criatividade e de qualidade. A sardinha é também um símbolo da cidade de Lisboa, um recuerdo que muita gente leva daqui, e está presente não só em Junho mas ao longo de todo o ano. É feita de todas as maneiras e feitios, em cerâmica, metal, papel, pvc, em toda a espécie de plásticos, de cartões, tudo o que se possa imaginar.

Tudo assente numa pobre sardinha.

A história ainda é mais engraçada porque entretanto a Fábrica Bordallo Pinheiro, da Visabeira, ressuscitou uma sardinha do Bordallo, do princípio do século XX, que eu nem sequer sabia que existia até há uns anos. É uma sardinha naturalista, uma escultura muito realista, e nela são estampados desenhos, muitos deles tirados das melhores criações do concurso da sardinha para a EGEAC. Há um ano, em conversa com o responsável comercial da Visabeira sobre essa produção de sardinhas, ele disse-me que as sardinhas da Fábrica Bordallo já tinham ultrapassado em vendas as andorinhas que eram o must da fábrica até essa altura. Não me vai perguntar por royalties, pois não?

Seria uma conversa triste?

Se houvesse, seria muito alegre, não havendo é muito triste.

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