As Vencedoras 2026
Histórias e autores

Tomatazo
A ideia do “tomatazo” como forma de mostrar desaprovação surgiu há séculos.
Um espetáculo de teatro ou até um discurso político que não agradasse ao público podia acabar com pessoas a atirar, de propósito, este fruto mole e cheio de sumo. Quando bate numa superfície dura (seja uma parede ou até uma pessoa), o tomate rebenta e espalha o seu interior colorido, cheio de sumo, polpa e sementes. Quem atirava tomates para mostrar desagrado acabava por perder a oportunidade de os aproveitar na deliciosa dieta mediterrânica.
O design inspira-se precisamente no “appétit délicieux” deste alimento e representa o momento do impacto numa superfície plana, dando origem à forma da sardinha.

Bolo de Arroz
A convergência de dois símbolos das tradições de Lisboa, a sardinha das festas de Santo António e o bolo de arroz das pastelarias de bairro, evoca a continuidade entre celebração popular e cotidiano, afirmando a valorização de sabores, rituais e referências que constituem a memória coletiva lisboeta.

Sardinha guitarrista
Esta sardinha não nada apenas, ela interpreta a cidade. Com a guitarra portuguesa abraçada ao peito, ela transforma o balanço do Tejo no dedilhar de um fado castiço que ecoa pelas ruelas de Alfama.
Pretende ser uma homenagem viva aos músicos que dão ritmo ao coração de Lisboa, onde cada escama é uma nota musical vibrante, fundindo a melancolia da saudade com o brilho da alegria. Mais do que uma figura, é a personificação da alma lisboeta: um tributo à tradição que, entre o fado vadio e as águas do rio, faz da música o seu destino.

O Telefone das Cuscusvilheiras
A ilustração propõe uma leitura satírica e afetiva da cultura bairrista portuguesa, utilizando uma cena quotidiana - duas senhoras à janela a estender roupa — como dispositivo visual para representar o fluxo informal de informação dentro da comunidade.
A composição parte de um elemento tradicionalmente doméstico, o estendal, que aqui deixa de ser apenas funcional e passa a operar como metáfora de exposição: tal como a roupa é colocada à vista, também a vida privada dos vizinhos é “posta a secar” no espaço público. O quotidiano é constantemente observado, interpretado e retransmitido.
As personagens são construídas com traço cartunista e expressivo, acentuando gestos, posturas e olhares cúmplices. Este exagero visual não busca realismo, mas sim evidenciar um comportamento social reconhecível: o prazer na conversa e na construção coletiva de histórias.
A abordagem humorística não tem carácter crítico agressivo, mas sim de reconhecimento cultural. A peça dialoga com o imaginário português, onde o café, a rua e a janela são extensões naturais da vida social, propondo uma analogia contemporânea: o boca a boca como uma forma primitiva, porém eficiente, de rede de comunicação.
Assim, a ilustração não retrata apenas duas figuras, mas um sistema: um microcosmo onde informação, imaginação e convivência se entrelaçam, transformando o banal em espetáculo e o íntimo em narrativa coletiva.

Património Fragmentado
Esta sardinha reflete a fragilidade do património cultural português através do simbolismo dos azulejos tradicionais. A sua superfície fragmentada evidencia a passagem do tempo, o desgaste e a transformação. Destaca a tensão entre preservação e degradação, sugerindo que o património necessita de ser ativamente protegido para perdurar.
