Autor: Marta Lança
Quem mora nesta BUALA interroga Lisboa a partir de quem a habita, atravessa, constrói e transforma. Reunindo entrevistas, reportagens, ensaios e olhares, traça uma cartografia da cidade alargada onde as experiências quotidianas se cruzam com a história colonial, as migrações e as lutas pelo direito à cidade.
Entrevistei moradores, ativistas, artistas, investigadores e trabalhadores, com particular atenção às pessoas negras e às comunidades imigrantes africanas, brasileiras e sul-asiáticas. Habitação, trabalho precário, transportes, acesso aos serviços públicos, entraves à regularização e participação política são questões centrais. Dos bairros de autoconstrução ao centro histórico, das viagens de barco e comboio às escolas e aos espaços de encontro, emerge uma Lisboa marcada pela segregação racial e económica, pela violência policial e pela expulsão de habitantes em nome do turismo e da valorização imobiliária. A rubrica questiona também as narrativas que moldam a cidade: os nomes das ruas, os monumentos, as memórias da escravatura e os apagamentos da presença africana. O debate sobre o Memorial às Pessoas Escravizadas, as toponímias coloniais ou o Jardim do Império liga o passado às desigualdades do presente e à exigência de reconhecimento e reparação. O cinema, a música, o teatro, a fotografia e a arte pública abrem outras possibilidades de contar Lisboa. Quem mora nesta BUALA torna visíveis práticas que sustentam a vida coletiva e disputam as decisões sobre o território. As vozes reunidas reclamam condições para morar, usufruir, criar e participar. A pergunta que dá nome ao projeto desdobra-se, assim, noutras: quem pode permanecer em Lisboa, quem tem voz sobre o seu futuro e como construir uma cidade em que a diversidade se traduza em direitos e pertença?







